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domingo, 26 de setembro de 2010

Aos domingos.






Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio algremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.
António Gedeão, Novos Poemas Póstumos, 1990(in Poesia Completa, Lisboa, Edições João Sá da Costa, 2a. Ed., 1997, p. 188).

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Poema de Jorge de Sena sobre o Natal

NATAL DE 1971NATAL DE 1971


Natal de quê? De quem?Daqueles que o não têm?Dos que não são cristãos?O de quem traz às costasas cinzas de milhões?Natal de paz agoranesta terra de sangue?Natal de liberdade num mundo de oprimidos?Natal de uma justiça roubada sempre a todos?Natal de ser-se igual em ser-se concebido,em de um ventre nascer-se,em por amor sofrer-se,em de morte morrer-se,e de ser-se esquecido?

Natal de caridade,quando a fome ainda mata?Natal de qual esperança num mundo todo de bombas?Natal de honesta fé,com gente que é traição,vil ódio, mesquinhez,e até Natal de amor?Natal de quê? De quem?Daqueles que o não têm,ou dos que olhando ao longe sonham de humana vida um mundo que não há?Ou dos que tortura me torturados são na crença de que os homens devem estender-se a mão?


Porto, Campo das Letras, 2004
Jorge de Sena
José Fanha (org.)
De palavra em punho